17 de out. de 2025

Amores de Julia

Julia é uma jovem venezuelana, acolhida no Amazonas para uma vida melhor.

Há alguns anos ela e parte de sua família se mudaram para Manaus em busca de novas perspectivas de vida. Conseguiram ocupações profissionais e seguem lutando e caminhando, buscando se adaptar a uma realidade diferente.

Julia se envolveu emocionalmente com um parente nosso, e foram por um tempo um casal de namorados. Participamos de alguns eventos familiares e ela cativou a todos com sua alegria e bom humor.

O tempo passou e o romance não engatou. Terminaram por iniciativa dela e ambos seguiram suas vidas, naturalmente.

O que chamou muito a atenção, e motivou esse texto, foi a reação da família quando descobrimos que Julia havia iniciado um novo relacionamento.

Em tempos de redes sociais, todos começaram a receber as notificações e fotos do novo namorado de Julia e  de seus programas em comum: no cinema, no restaurante, etc.

E ficaram bem chateados, houve quem desfez a amizade nas redes e "deixou de seguir".

Fiquei pensando sobre como nossos amores (e não os da Julia) são volúveis. Num momento gostamos da pessoa, simpatizamos, curtimos, torcemos.

No momento seguinte, quando ela não mais faz parte de nosso círculo, todo esse afeto é esquecido e vira mágoa, recalque.

Certamente o componente "foi ela quem terminou" é importante e pesa nessa reação. É como se tomássemos as dores do nosso parente e nos sentíssemos traídos, ultrajados.

Sem falar que o tempo também impacta esse postura crítica: "mal terminou e já está com outro??"

É muito interessante pensar sobre como o sentimento muda de polaridade rapidamente. 



25 de ago. de 2025

26 Anos no Amazonas

 No dia 24 de agosto de 1999 desembarquei pela primeira vez em Manaus.

Havia tomado um voo no Aeroporto da Pampulha, no início da noite. A conexão em Brasília foi rápida porém intensa: enquanto aguardava o voo para Manaus tomei coragem de abrir o cartão que minha mãe me entregara na despedida.

O texto, emocionado, desejava-me sorte e que eu alcançasse meus sonhos. Chorei muito, sentado na sala de embarque.

Em 1999 eu havia passado quatro meses fora de casa, em Brasília, realizando o curso de formação para a carreira para a qual havia sido aprovado em concurso. Naquele momento a realidade batia à minha porta: sairia de casa em definitivo, buscando um futuro do qual não tinha nenhuma certeza.

O voo da Varig chegou no horário, cerca de 22h40. Trouxera apenas uma mala pequena. No saguão ainda não climatizado do Aeroporto Eduardo Gomes tomei contato inicial com o calor amazônico. Busquei de imediato um telefone público para informar a família que havia chegado a salvo.

Logo os companheiros de profissão chegaram para me acolher. Iniciava ali uma jornada inesperada, um futuro do qual não tinha a menor suspeita.

O fato é que aquele dia 24 de agosto, há 26 anos, marcou uma mudança profunda em minha existência. Já vivi mais tempo no Amazonas do que em Minas. E aquele jovem inseguro e tímido que pisou pela primeira vez em solo manauara naquela noite nem imaginava isso.


29 de dez. de 2017

Itamar e Daniella


Há 25 anos, em 1992, contava eu 18 anos e acompanhava com muita atenção todos os desdobramentos do impeachment de Fernando Collor. Não cheguei a ir às manifestações de caras-pintadas, mas estava empolgado pelo clima vivido pelo país.

A imprensa investigava os detalhes da corrupção, explorava a ligação do presidente com PC Farias; o pedido de impeachment fora entregue no Congresso pela ABI e pela OAB e sua tramitação era célere; tudo se encaminhava para a saída do presidente, e se festejava a possibilidade de queda de um político envolto em corrupção.

Lá em casa minha mãe tinha uma assinatura de Istoé, à época comandada por Mino Carta, e eu consumia cada exemplar assim que chegava. Pela TV a pedida era acompanhar tudo pela Bandeirantes, que fazia uma cobertura correta e muito abrangente dos desdobramentos no Congresso.

O pedido de impeachment já fora aprovado na Câmara, Collor estava afastado provisoriamente. O Senado iria começar o julgamento, e a Band apresentava ao vivo a sessão do dia 29 de dezembro.

Estava eu só, em casa, assistindo à sessão, quando o advogado de Collor assume a tribuna. Especulava-se que o presidente poderia renunciar para assim encerrar o processo de impeachment sem julgamento. Dito e feito. O advogado leu a carta de renúncia, e eu acompanhei ao vivo, tomado de fervor cívico. Era um momento histórico.

Os jornalistas enlouqueceram. Correram atrás do Itamar para saber da repercussão. Populares faziam festa nas ruas, parlamentares idem no Congresso. Eu mal me continha de alegria por estar fazendo parte daquele momento nacional, ainda que apenas vendo a TV.

Nesse instante, minha mãe chega em casa, com um ar de muita ansiedade. A primeira coisa que ela me pergunta:

- Ele já está preso?!!

Obviamente, achei que ela se referia ao Collor. Expliquei que não, que ele renunciara naquele momento e que o Itamar era nosso novo presidente.

Minha mãe insistiu na pergunta e comecei a perceber que estávamos falando de coisas diferentes. Foi quando ela falou do trágico assassinato de Daniella Perez e da busca que estava sendo feito ao Guilherme de Pádua.

Mudei de canal para a Globo e vi que só se falava disso. Esse triste acontecimento acabou desviando bastante a atenção do momento político. Itamar e Daniella, Collor e Guilherme dividiram o foco de atenção dos brasileiros nas semanas e meses seguintes.

31 de dez. de 2014

O Hobbit e o Retorno de um quase Rei

Assisti à trilogia "O Hobbit" e o sentimento é de frustração. Sei que a literatura e o cinema têm linguagens diferentes, e que seria impossível a transposição literal do livro para as telas.

Mas mesmo assim lamento o resultado final do filme, pois creio que o principal aspecto da história, a amizade entre o hobbit e os anões, foi trocado pelo drama de um rei que não consegue ser rei.

A opção do filme parece ser destacar a luta por Thorin pelo Reino Sob-A-Montanha. Inventaram um orc antagonista, uma disputa renhida entre ambos, e uma morte "épica" no alto do morro do corvo. Curiosamente, o Hobbit que dá nome ao filme parece ficar esquecido nessa luta entre o Escudo de Carvalho e o "orc pálido".

No livro, Bilbo é o herói improvável que de ladrão inexperiente passa a ser o líder da Comitiva. Olhado com desconfiança pelos anões, passa a ser alvo de um sentimento de respeito, veneração e submissão quando livra a Comitiva de perigo atrás de perigo. Sem sua sorte, sua habilidade e sua esperança de um dia voltar a Bolsão, jamais os anões teriam recuperado o tesouro.

E, no filme, tudo isso parece ficar em segundo plano, pois o que importa é o retorno do quase Rei Thorin.

E, pra completar, praticamente descartaram no filme a figura do Beorn, que para mim é a mais surpreendente personagem. A narrativa de como os anões chegam à casa dele, as maravilhas que encontram na casa, as histórias que ele lhes conta, e sua participação decisiva na Batalha dos Cinco Exércitos, mereceram alguns minutinhos no segundo filme e meros 5 segundos no final da trilogia.

Na obra, quem mata o orc Bolg é Beorn, e não Legolas. E o Azog, que é o pai de Bolg na verdade, no livro é citado poucas vezes, descobrindo os leitores que ele foi morto há muito tempo por Dain. Nada de Azog, o Profano, inimigo feroz de Thorin.

Meu conselho: vá ler o livro. =)

23 de set. de 2013

Missão - SAI

Semana passada cumpri uma missão em Santo Antônio do Içá - SAI - cidade localizada na região do Alto Solimões.

O primeiro aspecto interessante dessa viagem é que ela seria desnecessária de existisse uma estrutura mínima de comunicação no interior amazonense. O fato é que existe um rapaz preso em SAI, e ele responde, também, a um processo na justiça militar. Precisávamos, apenas, que ele fosse intimado de uma decisão - é um direito seu por se encontrar preso.

Tentamos, por dois dias, um contato com o cartório local. Sem sucesso. Não há telefone instalado, e o que consta no sítio do Tribunal de Justiça na verdade toca no cartório eleitoral. Os servidores alegam que o cartório da justiça estadual fica em outro imóvel. Deixamos recado, e nada.

Como se tratava de um assunto urgente, decidiu-se que eu iria até lá intimar o preso. E precisamos montar uma logística, combinando horários de voos e de partidas de embarcações.

Assim, na quinta feira fui de avião até Tabatinga. Na manhã de sexta, tomei uma lancha rápida até SAI. Saímos às dez horas da manhã e chegamos 17h00, com paradas em Benjamin Constant, São Paulo de Olivença e Amaturá.

Cheguei e fui direto à delegacia. Trata-se, na verdade, de um distrito policial, pois compreende tanto a polícia civil quanto a militar. Quando cheguei, o imóvel estava fechado, e algumas pessoas estavam na garagem. Perguntei pelos policiais e fui informado que logo estariam ali.

Conversando com os rapazes, perguntei se eles trabalhavam ali. Eles riram e disseram que, na verdade, eram os presos do semi aberto e estavam ali para dormir.

Continuei a conversa e fiquei pasmo. São eles quem fazem os serviços gerais na delegacia: faxina, cozinha, manutenção. Enquanto isso, os presos do regime fechado estavam lá dentro. Se houvesse um desastre, as chaves estavam com os policiais...

Contaram várias histórias. Que o juiz não liga a mínima para eles. Que vai de vez em quando à cidade (pois responde também por várias comarcas da região) e sempre dá uma desculpa para não soltar ninguém. Que está preso há 3 anos um rapaz acusado de furtar duas latas de tinta acrílica. Ainda sem denúncia e sem processo. Que os advogados da cidade só vão até eles pedir dinheiro e nunca fazem nada. Que não há defensoria.

E mais, que a cidade só conta com um delegado, um cabo da PM e um soldado. O delegado estava em Tabatinga, fazendo um curso. E que os PMs quase nada podiam fazer, apenas registravam a ocorrência, quando os interessados procuravam a delegacia.

Um dos presos relatou que, certa vez, o cabo da PM o chamou para acompanhar uma ocorrência de briga. Chegando ao local, o PM se atracou com um dos contendores, o que acabou derrubando sua arma. Um dos presentes sutilmente guardou a arma, e se o preso não alertasse o PM quanto a isso, teria sido perdido o armamento.

Afirmaram o óbvio: que todos os presos ali se encontravam por vontade própria, pois se quisessem fugir já o teriam feito há muito tempo.

A conversa estava muito animada, e os PMs chegaram. Entrei, intimei o rapaz (que relatou outras histórias surreais) e retornei, no dia seguinte, em outro lancha a Tabatinga.

31 de dez. de 2012

Roberto Carlos e eu

Ninguém me perguntou, mas mesmo assim relato como percebi a presença de Roberto Carlos (RC) em minha vida.

Para um jovem dos anos 90 RC sempre esteve associado à Rede Globo. O único momento em que ele aparecia na mídia era o especial de final de ano. Não tocava nas rádios que eu escutava. Assim, a antipatia que os jovens costumavam ter pela Globo transferia-se automaticamente a ele. Achava as músicas chatas, e o via como mais um instrumento global de alienação popular. Por isso, nutria espontaneamente uma certa má vontade por tudo o que se relacionasse com ele.

Em 2000, estava morando em Manaus. E passava por uma crise, pois não conseguia me adaptar à cidade e queria a todo custo voltar a BH. Embora fosse um momento nebuloso, de lucidez embotada pela tristeza, creio que de maneira inconsciente fui guiado a refletir sobre minha própria identidade. Sempre gosto de lembrar que essa crise me levou ao Espiritismo - o que me tornou grato para sempre a ela.

Assim, em um dos aspectos dessa busca, fui tomado pela curiosidade de saber quais eram as músicas que tocavam na época em que nasci, em fins de 1974. Terminei por comprar o cd (na época LP) lançado por RC naquele ano. De camisa azul aberta, longos cabelos, o sempre presente medalhão, lá estava Roberto. E quando comecei a ouvir, fui levado por um sentimento de melancolia e nostalgia, pois uma das músicas era "O Portão", que falava exatamente do que eu estava experimentando: saudade de casa, inadaptação, vontade de ser acolhido.

Se isso não ajudou a resolver o retorno a BH, ao menos me sensibilizou para poder chorar de saudades, abrindo as comportas das lágrimas. Percebi que não era errado, ou inadequado, sentir falta de um lugar e de suas pessoas. E que isso fazia parte de minha identidade. Escutar aquela música representou uma grande libertação, uma catarse emocional. E me fez muito bem.

Depois disso fiquei interessado pela obra do RC. As demais músicas do LP de 1974 eram sensacionais. Comecei a perceber que muitas músicas que faziam parte de minhas vivências eram do RC. Músicas que outros artistas gravaram posteriormente e cuja autoria eu desconhecia. Como "É preciso saber viver", daquele mesmo LP, que eu só conhecia (e adorava) na versão dos Titãs. Até a música  que o papagaio de meu avô cantava, "Jesus Cristo, eu estou aqui", era dele.

Consegui comprar a biografia "Roberto Carlos em detalhes" antes da proibição judicial. E foi essa leitura que me fez descobrir a riqueza e o valor do Roberto. Tornei-me um fã e admirador a partir do texto que, ironicamente, não agradou a RC, tanto que sua distribuição foi vetada a partir de uma ação proposta por ele.

Hoje concordo com o título de "Rei" dado a ele. É um artista e tanto - seu trabalho tornou e torna nossa vida mais feliz e esperançosa.

24 de dez. de 2012

Feliz Natal

"Feliz Natal", é o que mais se expressa nessa época do ano. Formulamos esse desejo, essa intenção, a torto e a direito. Chega a ser um pouco banal. Desejamos feliz natal pra moça da padaria, para o atendente do telemarketing, nas gravações da secretaria eletrônica. E, obviamente, para aquelas pessoas mais próximas e especiais.

Natal é relativo ao tempo ou ao lugar de nascimento. Natural, nato, natalício são parentes dessa palavrinha. Culturalmente, estamos celebrando o nascimento de Jesus - é a data aceita pela tradição como sendo a relativa aos acontecimentos narrados nos Evangelhos. A anunciação a Maria, a viagem até Belém, o nascimento na manjedoura.

Então - e ninguém precisava ler essa explicação tosca, mas eu a apresento assim mesmo - o nascimento feliz referido pela nossa saudação é o de Jesus. O natal de Jesus se tornou um evento, em geral celebrado na companhia de familiares e com um cardápio diferenciado. Famílias e agrupamentos cultivam tradições, gastronômicas e sentimentais, levadas a cabo nesses dias.

No entanto, a proximidade dos festejos natalinos com o final do ano agrega um valor diferenciado a essa celebração. Precisamos dessa ideia de ciclos iniciando e terminando, daí esses são dias em que planejamos novas realizações, avaliamos o que foi feito e buscamos novas energias e disposição para, literalmente, começar tudo de novo.

E, pensando em uma interpretação um pouco diferente da usual, a expressão "feliz natal" tem tudo a ver com esse momento. Quando falo "feliz natal" para o jornaleiro, penso eu, estou desejando a ele um novo nascimento, um novo recomeço e, além disto,  um nascimento feliz, pleno, exitoso.

Eu sou cristão. E não estou esvaziando o sentido do Natal, atribuindo a ele um significado próximo do "próspero ano novo" (outra expressão banalizada). Por mais felicidade que desejemos agregar ao destino alheio, está fora de nossas possibilidades isentar a criatura de sofrimentos, decepções e agruras. Faz parte de nossa condição a adversidade, a tristeza, o amargor.

E é na mensagem de Jesus, no relato de sua trajetória de fraternidade plena, de comunhão integral com o Pai Divino, de aceitação resignada e confiante das provas da vida, que retiramos a força e a energia necessárias para nossas lutas diárias. Que exemplo maior de amor ao semelhante, de esperança no futuro, de simplicidade e de beleza na conduta podemos encontrar?

Que a vida renasça em ti bela e feliz. Que encontres força e motivação para cumprir teus compromissos, aceitar teus desafios e seguir adiante, integrado ao amor de Deus. É o que te desejo com o meu "Feliz Natal"!

16 de set. de 2012

Cartas Para Julieta

Eu e France sempre escolhemos de comum acordo os filmes a que assistimos no cinema. Há gêneros que obviamente não passam pela pré-qualificação: terror, violência, comédias cínicas, entre outros.

Quanto aos demais, certamente há os que mais me agradam, e ela tolera, e vice versa. Assim, ela assiste a minhas animações e aos filmes de aventura, e eu a acompanho nas comédias românticas. Costumamos brincar que vamos acumulando créditos quando assistimos a um filme que agrada ao outro, e depois os compensamos.

Um dos filmes da cota dela a que assistimos foi "Cartas Para Julieta". Na história, um casal de noivos viaja à Itália, na região da Toscana. O rapaz é um cozinheiro em busca contatos com fornecedores para seu restaurante prestes a ser inaugurado em Nova York. A moça é jornalista e aspirante a escritora, e espera que seja uma viagem romântica.

Em Verona, eles encontram uma antiga tradição inspirada na história de 'Romeu e Julieta': numa espécie de 'muro das lamentações amorosas', diversos bilhetes e cartas são deixados, todos endereçados à integrante da família dos Capuleto e contendo indagações, pedidos de conselhos, dúvidas, desabafos, e etc.

Um grupo de senhoras, intituladas 'secretárias de Julieta', e funcionárias da prefeitura local, recolhe as mensagens e as responde, em nome de Julieta. A protagonista da história, Sophie, encanta-se com a tradição, à medida em que seu noivo gradativamente dela se afasta, pois está mais interessado na culinária italiana. A ideia do romantismo na viagem aos poucos esmorece. 

Ao vasculhar o muro onde são afixadas as cartas para Julieta, Sophie acaba encontrando uma carta ali deixada há mais de 50 anos. Ao ler a missiva, encanta-se com a narrativa de Claire, uma jovem inglesa que se apaixona perdidamente por Lorenzo, um morador de Siena. Na carta, Claire pergunta a Julieta o que fazer, pois está apaixonada mas precisa retornar a Londres e sabe que seus pais não aprovariam o relacionamento com o jovem italiano.

Confiante de que o amor nunca termina, Sophie responde à carta de Claire, incentivando-a a correr atrás de seu amor.

Claire, ainda morando na Inglaterra, acaba por receber a resposta escrita por Sophie e anima-se a voltar à Itália e procurar por Lorenzo. Sophie acaba se juntando a ela nessa busca, e ambas, na tradição das comédias românticas, encontram seus amores - e não estou falando do noivo cozinheiro.

Quase toda comédia romântica é previsível, e essa não é exceção. Mas ainda assim a gente se deixa levar pelo enredo, torce pelo 'felizes para sempre' e se diverte. E ainda escuta uma trilha sonora bacana e se deslumbra com as belas paisagens da Toscana.

24 de fev. de 2012

Na Clínica

Esposa: Alô?
Marido: Oi, amor! Já estou aqui na clínica da prefeitura, para fazer a castração de nossa cadelinha.
Esposa: Que bom. Está muito cheio aí?
Marido: Não, tem duas gatas na nossa frente, e depois mais três gatinhas na fila.
Esposa: [silêncio mortal]
Marido: Alô?
Esposa: De que tipo de gata você está falando?
Marido: Hein? Como assim? Ah, entendi. [rindo]. São gatinhas, animais, daquelas que fazem miau.
Esposa: Então tá certo.
Marido: [bancando o engraçadinho] Mas agora que você comentou passei a prestar atenção, as donas das gatinhas não deixam nada a dever a elas...
Esposa: [outro silêncio mortal]
Marido: Alô?
Esposa: Aproveita que você está aí e pede para te castrarem também. [desliga]
Marido: Alô? Alô?

[Baseado em fatos reais]


8 de fev. de 2012

Aventura no Alto Solimões

Há alguns anos acompanhei uma equipe da FUNAI até Atalaia do Norte para negociar a desocupação da sede da administração regional. Um grupo de indígenas, insatisfeito com o administrador, ocupou as dependências do imóvel exigindo a substituição do chefe. Veio de Brasília, assim, uma delegação, composta pelo diretor da área, uma assessora - que era uma índia nascida em Roraima e que concluíra um curso superior na capital federal - e um senhor que era uma espécie de segurança e informante.

Fomos de avião até Tabatinga, onde Davi Ticuna, Administrador da FUNAI nesta cidade, nos recebeu. Tudo isso aconteceu há 7 anos, e um dos poucos nomes que guardei foi o dele. Davi é uma pessoa muito simpática, e foi nosso cicerone na expedição. Chegamos já de tarde, e tínhamos de nos deslocar até Atalaia. Davi alugara uma potente lancha de 200 hp e lá fomos nós pelos furos do Rio Javari.

Chegamos e nos instalamos num hotel muito, muito singelo - quem conhece o interior do Amazonas faz ideia. Dividi o quarto com o Davi. A primeira providência foi ir direto à sede ocupada. É um imóvel bem próximo ao porto, e um grupo de indígenas ordeiro e simpático ocupara o pátio e a garagem. Havia índios marubos e matis, e muitos não falavam português. Alguns matis traziam uma espécie de bigode feito de pequenos palitos enfiados na bochecha, imitando uma onça. O interior da administração estava sendo preservado, não havia ninguém lá dentro.

Já se sabia que os líderes da ocupação não se encontravam lá, mas o diretor quis passar no imóvel para informar que havia chegado e as negociações iriam começar. Segundo os invasores, o administrador da época era ligado ao grupo político do prefeito, e havia denúncias de desvio de madeira apreendida e de uso dos recursos da FUNAI para favorecer tal grupo.

Não era a primeira vez que tais invasões aconteciam, elas eram a forma de os indígenas organizados se manifestarem, principalmente contra os administradores regionais. Era uma negociação difícil, pois eles impunham suas condições - normalmente a nomeação de um indígena ou de alguém de sua confiança para ocupar o cargo - e era muito complicado obter algum tipo de transigência.

No caso de Atalaia a ocupação fora pacífica, e os servidores simplesmente saíram, deixando a administração na mão dos índios que, como dito, preservaram o imóvel e se limitaram a ficar do lado de fora.

Em seguida fomos à sede do Conselho Indígena local, onde estavam os líderes. Já estava de noite, e eles estavam exaltados. Pareciam embriagados, e enumeravam os desmandos do administrador. O chefe da delegação, acostumado com essas negociações, escutava a todos e pontuava o mínimo possível o "diálogo". Os indígenas indicaram o nome de outro servidor da FUNAI para ocupar a administração. Ele, não indígena, estava lá, e era um dos mais exaltados (e também parecia embriagado). Aparentemente, era uma opção com a qual a direção da FUNAI não contava.

Depois de muito ouvir, o diretor começou a apresentar sua proposta: o primeiro passo para a negociação era a desocupação do imóvel e a retomada das atividades administrativas. Depois disso se discutiriam os possíveis nomes, dentre os quais o do atual administrador. Ou seja, anunciava-se a possibilidade de tudo continuar como antes.

Foi como jogar gasolina na fogueira. Os indígenas gritavam, encolerizados, e praticamente nos expulsaram da sede do Conselho. Voltamos caminhando para o hotel, e no caminho jantamos num churrasquinho, desses que ficam na rua. Estavam todos apreensivos, pois tínhamos passagem marcada para retorno dali a dois dias, e a solução do impasse parecia distante.

No quarto do hotel, Davi me comunicou que iria agir sozinho para tentar resolver a situação. Disse que seria necessária muita conversa, mas que tudo poderia se resolver. E me convidou a acompanhá-lo nessa missão.

Acordamos no outro dia às 5 da manhã e fomos à sede ocupada, ainda no escuro. Os índios já estavam todos acordados e se encaminhando para o banho. Havia uma fila deles na porta do banheiro. Fiquei maravilhado com a cena, e percebi de onde vem esse nosso hábito, que muito aprecio - tomar banho assim que acordar.

Davi foi logo confraternizando e conversando com todos. Mesmo sem querer, eu acabava chamando a atenção, em virtude da altura e, principalmente, da quantidade de pelos no corpo. Havia crianças indígenas que me cercavam e não paravam de olhar, espantadas, para meus braços e mãos.

Um dos índios veio falar comigo. Era o Branco, pois tinha a pele dessa cor. Com a ajuda de Davi, nos comunicamos. Ele informou que um de seus filhos havia ido morar em Manaus, e me perguntava, candidamente, se eu tinha notícias dele. Talvez ele pensasse que Manaus fosse do tamanho de Atalaia, e fosse fácil saber da vida de todos. Até hoje não esqueço do olhar do Branco, cheio de esperança de uma notícia sobre o filho.

Dali começamos uma longa peregrinação pela cidade, para conversar não com os líderes, mas com os pais deles. Davi os conhecia, e era essa sua estratégia. Conseguimos encontrá-los, mas não pude participar da conversa. Sempre tinha de ficar à parte, enquanto o Davi falava e falava.

Terminamos a tempo de encontrar o resto da delegação saindo do hotel, lá pelo meio da manhã. Voltamos à sede ocupada e entramos na sala do administrador. O diretor então marcou uma reunião para o começo da tarde, com a participação dos líderes da ocupação.

Na hora marcada, todos chegaram e o ambiente estava carregado. Resumo: após muita conversa, nem um nem outro - as partes concordaram com a assunção de um terceiro servidor da área, também não indígena, contra quem ninguém tinha nada. O atual administrador seria exonerado e o indicado pelos índios tinha proposta de outra área da FUNAI. Foi um alívio. Tenho certeza que esse desfecho só foi possível com a articulação do Davi, cujo trabalho permaneceu desconhecido da delegação.

Deixamos Atalaia e voltamos a Tabatinga. Na manhã seguinte, fomos com o Davi visitar e inaugurar um posto da FUNAI numa comunidade no Solimões. A aldeia era todo arrumadinha, com energia elétrica e uma boa estrutura. Mais uma vez, e completamente sem querer, chamei bastante a atenção. Se eu tivesse vendido os pelos do meu braço como souvenir teria ficado rico.

Foi realizada uma cerimônia de inauguração do posto - que na verdade havia sido reformado. Discurso com tradução simultânea para a comunidade indígena que ouvia, atenta. Discurso do Davi, do diretor, da assessora e claro, por que não, desse rapaz alto do "governo federal" acompanhando a comitiva. Ganhei de presente um colar de madeira, com diversos bichos entalhados, e uma tela de palha com uma pintura muito bonita.

Depois do discurso, um almoço para todos, uma grande comilança. A cada minuto lançavam um bodó assado na minha frente e fui comendo. Serviam vinho de açaí e sucos diversos. De repente, serviram uma grande posta assada, que parecia um pirarucu. Mas descobri que era jacaré, e estava delicioso.

À tarde retornamos para Manaus, findando essa aventura no Alto Solimões.